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Em conversa com a representante do Banco Mundial para Angola e São Tomé e Príncipe

quinta, 25 fevereiro 2016 14:51
Publicado em Notícias

Em conversa, exclusiva com o SEMANÁRIO ECONÓMICO, a representante do Banco Mundial para Angola e São Tomé e Príncipe, disse que apesar de não se registar, no momento, um grande impacto do abrandamento da economia chinesa sobre as economias africanas, o continente deve preparar-se para os riscos que podem eventualmente surgir.

 clara2Clara Sousa define como prioridades do seu mandato, liderar, manter e fortalecer o relacionamento e diálogo político com os governos dos dois países. Na sua agenda de trabalho consta ainda a ajuda aos Estados de modo a promover um crescimento económico sustentável, reduzir a pobreza, melhorar a governação, assim como fortalecer o ambiente de negócios.

África continua a debater-se com vários problemas sociais, políticos e económicos, ao mesmo tempo luta para atingir um desenvolvimento sustentável. Em que medida o Banco Mundial pode contribuir neste desafio?

A nosso ver, as desigualdades sociais são problemas que o mundo enfrenta e gostaríamos puder dar o nosso contributo para que o planeta passa a ser um lugar, onde por um lado, a pobreza fosse eliminada ou reduzida, e por outro, garantir que os que têm 40 por cento das rendas mais baixas possam ter uma maior partilha naquilo que são as riquezas dos seus países.

O abrandamento da economia chinesa deve constituir preocupação às economias africanas?

A economia chinesa está a desacelerar e como sabemos é consumidora de um conjunto de matérias- primas que vem dos nossos países. Penso que neste momento estamos ainda na conjuntura a observar o que poderá acontecer, mas é uma realidade que devemos prestar bastante atenção porque os riscos estão visíveis. Sendo a China um parceiro tão próximo de África deve haver motivos para preocupação. Não vamos esperar que aconteça os impactos, é melhor nos prepararmos para antecipar os riscos e vermos, em que medida é que podemos minimizar os impactos que podem vir.

Como avalia o estado actual das economias africanas?

As economias da África Subsariana tiveram um forte desempenho económico na última década, com taxas médias de crescimento acima de cinco por cento ao ano. Projecções recentes do Banco Mundial sugerem que a região manterá um desempenho económico robusto, com um crescimento de 4,5 por cento em 2015. Este crescimento mostra uma desaceleração comparado com o do passado recente e reflecte em parte o impacto do acentuado declínio dos preços dos produtos petrolíferos sobre as oito maiores economias exportadoras de petróleo da região, incluindo a angolana.

Mas África precisa de um desenvolvimento sustentável e não apenas de crescer economicamente?

Concordo. Como indiquei, a África tem mostrado bom desempenho no seu crescimento macroeconómico, mas há parcelas da sociedade que não tem beneficiado de tal crescimento. Apesar de haver redução nas taxas de pobreza, mais de metade dos africanos continuam a viver com menos de 1.25 dólar por dia, demasiadas crianças continuam a passar fome, e demasiados jovens continuam sem acesso a um bom emprego. Isto mostra que o crescimento não está a ser suficientemente inclusivo e há dados que mostram que as desigualdades sociais estão a aumentar. Adicionam-se aos desafios ligados a desequilibrada distribuição da renda e de oportunidades os riscos que resultam das mudanças climáticas e desastres naturais.

Luanda acolheu recentemente a reunião do Caucus Africano onde abordou-se, por exemplo, a fuga de capitais do continente, avaliado em 50 mil milhões de dólares. Tem alguma estratégia para ajudar a contornar esse quadro?

Gostava de usar este canal para saudar as autoridades angolanas pela excelente organização deste importante evento, onde Governadores de três instituições financeiras multilaterais se juntaram para discutir assuntos de importância comum, tendo partilhado importantes conclusões bem reflectidas na Declaração de Luanda. As instituições como a nossa podem jogar um papel importante na criação de condições adequadas para aumentar a cobrança de impostos, e usar os recursos de forma a providenciar os serviços de que as populações e as empresas necessitam. Mais do que isso, o Banco contribui com políticas em resposta a problemas como fluxos de capitais ilícitos, tendo em conta as características específicas do país onde o problema se manifesta.

Como pode ajudar Angola a reduzir os níveis de pobreza e os desequilíbrios na distribuição da renda?

No caso de Angola, vocês têm a visão 2025, têm a estratégia de redução da pobreza e outros documentos que são o guia daquilo que o Governo toma como decisão de políticas. A nossa plataforma de trabalho é tentar encontrar áreas de interesse comum. Então, tentaremos encontrar áreas onde temos vantagens comparativas, porque são áreas aonde detemos algum conhecimento e experiência, e vamos juntar forças para que esses programas possam trazer resultados. No caso especifico de Angola, definimos uma estratégia de colaboração com o país que cobre os anos fiscais 2014-2016.

Fale-nos de projectos angolanos financiados pelo Banco Mundial até ao momento.

Temos neste momento no nosso portefólio seis operações e destes, cinco foram aprovadas enquanto Angola era país de rendimento baixo. Estão a ser financiadas várias operações, como, por exemplo, no ramo da Agricultura familiar, das Águas, da Educação e da Saúde. São operações que em média estão a funcionar há quatro anos. Nos orgulhamos bastante da parceria que temos com Angola. A última operação efectuada foi a de apoio ao orçamento que, por sinal, é a primeira feita com Angola, que focaliza-se nas áreas fiscais e de gestão macroeconómica. A operação foi aprovada em Junho e está no processo de desembolso.

O AID- Associação Internacional para o Desenvolvimento – é um dos instrumentos do Banco Mundial de apoio as economias em todo mundo. Por que Angola deixou de receber esse tipo de apoio?

Temos diferentes termos em que funcionamos e usamos vários instrumentos. Tendo Angola passado de um país de renda baixa para um país de renda média alta, deixou de ter acesso ao AID, apoio dedicado aos países mais pobres e passou a receber apoios do BIRD, instituição do Banco Mundial que lida com economias que têm capacidade de ir buscar recursos, mas que usam o banco como forma de buscar esses recursos nos termos mais favoráveis. Temos capacidade de ter acesso a diversas experiências e delas filtrar aquilo que pode ser útil às outras economias. Para países de renda média temos, igualmente, um instrumento de prestação de serviços reembolsáveis.

Mencionou vários apoios financeiros do Banco Mundial para Angola. Pode dizer em quantos estão avaliados esses financiamentos?

O actual portfólio do Banco Mundial em Angola conta com seis projectos, correspondendo a um montante total de empréstimos de 876 milhões de dólares.

O Banco Mundial estimou no seu relatório “Perspectivas Económicas Globais – 2015”, que a economia angolana iria registar um crescimento de 4,5%, antecipando uma quebra de 0,6 pontos para 2016 (3,9%), e uma recuperação de 5% em 2017. Tendo em conta o actual quadro macroeconómico do país podemos afirmar que esta avaliação está ultrapassada?

Recentemente o Fundo Monetário Internacional esteve em Luanda , contudo, penso que fez uma análise muito mais recente do que a nossa. Porém, como usamos as mesmas metodologias, creio que o FMI terá feito uma boa avaliação. Em relação ao crescimento, Angola como outros países produtores de recursos energéticos estão a passar por um choque macroeconómico de dimensões gigantesca e, perante um choque desta natureza, é de esperar que os níveis de crescimento que víamos nos anos atrás, que andavam a média de 10 ou mais, não sejam os mesmos.

O quê que aconselha neste caso a Angola?

Terá de haver um ajustamento para baixo, o que já está a acontecer. Para mim o importante, quando há esses tipos de choques, é como se vai reagir e, como em choques subsequentes se tomem ilações. Pelas análises do FMI, um dos aspectos que é importante realçar é que neste choque, apesar da sua magnitude, a economia angolana reagiu de forma mais positiva do que no choque anterior, o que demonstra que houve um processo de absorção de lições da versão anterior para o momento actual. O ano de 2015 está a ser de grandes desafios, há um arrefecimento comparando com alguns anos atrás. Temos seguido com atenção as medidas que o Governo tem tomado e pensamos que são medidas que respondem a dimensão do choque.

Que desafios encontra na ilha de São Tomé e Príncipe?

As diferenças entre São Tomé e Príncipe e Angola são significativas. São Tomé tem a particularidade de ser uma economia muito pequena, isolada e extremamente vulnerável a choques. E quando falo de choques estou a me referir, principalmente a choques de índole natural. Como noutras economias insulares, as cheias, por exemplo, constituem um grande problema. São Tomé não tem os recursos que Angola tem. É um país isolado e pequeno. Quando se está num continente é mais fácil fazer aproximação com os mercados que se avizinham, porque o isolamento no meio do mar complica as coisas de forma significativa. Portanto, pensar numa estratégia de desenvolvimento em São Tomé deve-se ter em conta essas características que o país tem. O Banco Mundial tem uma estratégia para o período 2014-2018, e trabalha no sentido de ajudar o país a implementar a sua estratégia de redução da pobreza. Também focalizamos as nossas atenções nalgumas áreas que pensamos serem aquelas que têm maior impacto no desenvolvimento.

O que São Tomé deve fazer no sentido de potenciar cada vez mais a sua economia?

São Tomé precisa se diversificar. O país tem cacau e outros produtos. O turismo também começa a se desenvolver, mas tem de se encontrar formas novas e outras maneiras de crescer enquanto economia. E uma das maneiras para São Tomé crescer é apostando na exportação. Estamos a trabalhar com projectos focalizados no crescimento, como o desenvolvimento do sector social, educação, energia e outras. Por exemplo, os projectos do país de potenciar cada vez mais o turismo será difícil de se concretizar sem uma energia fiável.

“Angola é um país aonde as oportunidades e os desafios são visíveis”

Clara de Sousa, a mulher que lidera o escritório do Banco Mundial em Angola, é uma pessoa de trato fácil e de boa retórica. Fala várias línguas, entre as quais, inglês, mas foi em português que durante 23 minutos e 34 segundos manteve diálogo com a equipa do SEMANÁRIO ECONÓMICO. A entrevista aconteceu numa das salas de reuniões do escritório do Banco Mundial, em Luanda, um lugar dominado pelo tom azul, uma cor que rapidamente nos lembra o logotipo do BM.

Gosta de gesticular enquanto fala. Socorre-se a exemplos concretos quando se referi a operações do Banco Mundial. Antes de responder a primeira pergunta desta entrevista, agradeceu-nos pelo convite formulado, há duas semanas. “Começo por agradecer o Semanário Económico pelo facto de me terem convidado para essa conversa…”. Na ocasião, trajava um facto preto e usava um brinco simples de cor-de-rosa que faziam a harmonia com a blusa colorida, dominada também pela cor azul. E, claro, tinha um relógio preto e dourado no pulso, mas não controlava o tempo, estava à vontade.

Acompanhada do seu assessor para área de imprensa, Clara de Sousa mostrou ser daquelas entrevistadas que motiva qualquer bom jornalista que gosta de aprender coisas novas, pois, é professora e, quando responde a determinada pergunta, fala com propriedade, com firmeza…ensina. Diz que está a gostar da cidade de Luanda, principalmente da gastronomia angolana, que considera ser muito “rica” e diversificada.“O vosso cacusso e simplesmente maravilhoso”.

É uma mulher muito apegada a leitura. Prefere ler ficção e crônicas de viagens. Já leu vários escritores angolanos: “Li muita literatura angolana, desde poesia de Agostinho Neto ao “Quem Me Dera ser Onda” de Manuel Rui, passando por clássicos como Luandino Vieira e a sua obra Luuanda, e Mayombe de Pepetela”, revela.

Fala de Angola como se estivesse a falar da sua terra natal (Moçambique): “Desde que me juntei ao Banco Mundial esta é a primeira vez que estou a trabalhar em África, onde eu nasci. Prestei a minha contribuição na zona francófona da África ocidental e é a primeira vez que trabalho na região da SADC e tenho grande privilegio de fazê-lo em Angola, um país cuja história e cultura cresci a conhecer e a acompanhar”.

A nossa conversa não foi mais longa devido aos vários assuntos que Clara de Sousa tem por resolver diariamente, uma vez que recai sobre ela a responsabilidade de responder aos assuntos do BM no território angolano. Foi assim que terminamos a nossa conversa quando o relógio marcava 15:29 minutos e 23 segundos. ….E por fim, disse, regozijada: “Angola me parece ser uma das economias no nosso continente que oferece as oportunidades mais desafiadoras. É um país aonde as oportunidades e os desafios são de tal maneira visíveis, que poder contribuir, ainda que seja um pouco, para que esses desafios se transformem em oportunidade seria uma grande honra para mim”.

Perfil: A professora moçambicana que se tornou líder no BM

Clara  Ana Coutinho de Sousa nasceu em Ribaue, uma vila da província de Nampula, no norte de Moçambique. Cresceu em Chimoio, na província de Manica onde seus pais se viveram. É formada em Economia. Possui um doutoramento em Economia pela Universidade de Warwick no Reino Unido, um mestrado em Economia Quantitativa do Desenvolvimento pela mesma universidade e um Mestrado em Economia Internacional pela Universidade de Sussex. Conta com cerca de duas décadas de experiência de trabalho em política fiscal e macroeconómica. Ingressou para o Banco Mundial em 2005 como Economista Sénior no Departamento de Políticas Económicas para a Região da América Latina e Caraíbas e desde então desempenhou várias funções de relevo na instituição e em várias partes do mundo, sendo a mais recente a de Economista Sénior na Vice- Presidência para o Desenvolvimento e Finanças.

Antes de ingressar para o Banco Mundial, Clara de Sousa foi Administradora no Banco de Moçambique, além de directora e professora da Faculdade de Economia da Universidade Eduardo  Mondlane em Maputo. Actualmente é a representante da instituição de Bretton  Woods (Banco Mundial) para Angola e São Tomé e Príncipe, função que desempenha deste Abril deste ano. É a primeira vez que é chamada para trabalhar na região da SADC, motivo que a orgulha bastante, sendo africana, com raízes em Moçambique.

Nos dois países Clara da Sousa quer liderar, manter e fortalecer ainda mais o relacionamento e diálogo político com os Governos e outros intervenientes com vista a ajudar a promover o crescimento económico sustentável, reduzir a pobreza, melhorar a governação e fortalecer o ambiente de negócios. A economista quer, durante o seu mandato, proporcionar uma liderança e garantir a implementação eficaz da Estratégia de Parceria com os países “ para alcançar resultados e qualidade no terreno em tempo útil”. Casada com João Mário Salomão, um engenheiro que trabalha na área de águas e saneamento. Tem um filho,  Danilo Nhantumbo, um jovem apaixonado pelo desenvolvimento rural, área em que trabalha.

Fonte: http://semanarioeconomico.co.ao/clara-de-sousa-angola-na-nossa-classificacao-e-um-pais-de-renda-media-alta/

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